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Mudando de ideia

Faz algum tempo, fiz um texto sobre a apatia da nossa sociedade. Foi intolerante, irritado e tão vazio de informações quanto pude fazê-lo. Desde então, me vejo questionando minhas próprias contestações.
As pessoas serão realmente tão apáticas quanto parecem?
Até uma semana atrás talvez respondesse que sim, com uma hesitação digna dos sensatos. Essa já não é a verdade. Não creio que as pessoas sejam apáticas em relação ao que ocorre em nossa sociedade. Através de uma calorosa discussão sobre o movimento dos sem terra, percebi que muito pelo contrário. Todos temos opiniões e crenças, por mais alienadas ou preconceituosas que estas possam ser.
Devo comentar que me surpreendi com a sensatez de meus colegas, embora parte desse senso tenha me parecido mais com frieza em certos momentos. Somos jovens burgueses, um tanto egocêntricos, mesmo que possuamos uma consciência social anormal para nossa classe, e saber que nossa juventude não é desculpa para apatia me foi um estranho conforto.
Mas estou devaneando.
Creio que o problema real de nossa sociedade não é a apatia, é a preguiça. Fazemos parte de uma geração que criou a errônea teoria que outros farão nossas tarefas em nossos lugares – talvez a inclusão tecnológica tenha algo a ver com isto. Podemos gritar e nos irritar, sentados em nossos sofás ou carteiras de escola, enquanto esperamos que o mundo sobre o qual temos opiniões tão fortes se conserte por si só.
Gostaria de dizer que não faço parte desse grupo, mas a hipocrisia de minha classe é quase tão histórica quanto estes 510 anos de Brasil. Somos um país burguês, controlado pelo dinheiro de poucos e explorando o trabalho da massa. Pobres de todos, dependendo de nós, burgueses jovens, de idéias tão fortes, mentes tão vazias e ações tão preguiçosas.

Dear mr. president

Apatia

Às vezes a gente se pega pensando em como o mundo está. Nas guerras, na miséria, nos conflitos religiosos, na corrupção. A gente começa a imaginar se existe uma razão por trás disso ou, então, por que ninguém nunca fez nada para acabar com esses absurdos.

Quem nunca parou para refletir sobre os problemas que afligem todo o planeta?

Essas coisas que parecem tão comuns e, ao mesmo tempo, tão ridículas, nos irritam e nos fazem desejar uma maneira de recolocar tudo nos eixos. O desenvolvimento de uma economia ou a tentativa de manter a segurança de um país rico não são desculpas suficientes para a pobreza e para a morte de pessoas inocentes.

Quem nunca quis mudar o mundo?

Estes dois milênios estão repletos de lutas e de antigos preconceitos, que variam entre a classe social e a cultura a qual cada indivíduo pertence. O passado destaca inúmeras formas de segregação, assim como muitas vitórias daqueles que buscavam a liberdade e que não descansaram até que a obtiveram. Os exemplos de resistência e da tentativa de uma sociedade igualitária estão espalhados na história.

Deixaremos que tenha sido em vão?

Em nossas escolas, discutimos sobre o período de ditadura, sobre o nazismo e sobre o antigo sistema escravista, dando nossas opiniões e nos exaltando como se vivêssemos naquelas épocas. Brigamos porque acreditamos naquele ideal e sentimos a dor dos que tiveram que passar pelo auge destes movimentos.

Só nos esquecemos que o ponto final no livro de história não significa que aquilo acabou.

Ainda hoje, famílias sofrem com as conseqüências da ditadura; são pessoas desaparecidas e fatos acobertados que nunca poderão ser trazidos à tona, além da dívida externa brasileira que mantém a influência de outros países em nossa economia. O fascismo e o xenofobismo renascem, mudando de endereço e assumindo novas características, sem perder sua base. A escravidão continua, disfarçada pelos baixos salários, mas explícita na exclusão social e no racismo.

Além do que já foi apresentado anteriormente, surge a preocupação com a corrupção no Brasil, as crises econômicas que ameaçam alcançar o país a qualquer momento e as dificuldades sociais como o desemprego e os péssimos sistemas de saúde e educação brasileiros.

A crise é no exterior, é aqui dentro, é em todo lugar.

E, apesar de tudo, a população mundial se mantém imóvel; temos consciência do que ocorre e nada fazemos. Como já foi discutido em uma aula de filosofia do segundo ano, terá que acontecer algo de uma proporção terrível para finalmente livrar-nos desta apatia. E, então, quem sabe, poderemos mudar o mundo.

Nós sabemos gritar, sabemos apontar, só falta aprender a fazer alguma coisa.

Teus passos

A cada passo teu
Mais corpos no chão
A cada passo teu
Mais jovens em perdição
A cada passo teu
Mais lutas sem razão
A cada passo teu
Mais angustia e escuridão

A cada passo teu
Mais palavras a dizer
A cada passo teu
Mais loucuras a acontecer
A cada passo teu
Mais sonhos a se dissolver
A cada passo teu
Vejo o mundo entristecer

Controla, classifica e destrói
Humano ou negro ou judeu
E já não se pode lutar
Contra o poder que o povo te deu
E assim sufoca o mundo
A cada passo teu

E mesmo após a derrota
Todos ainda nos tornamos tementes
Diante de sua marca na história
E da marca em nossas mentes

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