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Vida

Os olhos encaram o vazio,
as mãos tateando o ar
e são tantas as mãos e os olhos
que se torna impossível contar.

Os corpos caminham sem rumo
as almas, a flutuar
De tão perdidos os corpos das almas
já não conseguem nem mais se achar

Me desculpe,
mas esse sol,
esse mar,
me deixam comovida como o diabo.

A lista

A lista – Oswaldo Montenegro

Eu faço uma lista das coisas que amei
das coisas sentidas, guardadas, perdidas,
das coisas que estimei.

Faço uma lista das minhas manias,
dos ciumes e dores e sonhos que tive,
dos dias de chuva e de riso livre,
do que era pra ser, mas não é.

Faço uma lista das melhores coisas da vida,
do que me irrita e me faz sorrir,
do que possuo e do que perdi,
do que o futuro será.

É importante e superficial,
só para mim.
É a inspiração de um canto recluso do meu jardim.
É a lista, sou eu, é o mundo.

Dear mr. president

Livre arbítrio.

Quando nasci, um cara estranho,
Um louco de asinhas nos sapatos, anunciou:
Seu anjo está de férias.
Bom, até hoje não sou gauche,
Não sou coxa,
Não sou ruim
E não carrego bandeira.
Controlo meu próprio destino.
Vai ver essa era a verdadeira mensagem do tal de Hermes.
Livre arbítrio.

Levanta.
É frágil, é estranha.
Não se abre, não definha.
Permanece.
Vem o vento, vem a chuva.
Se dobra, não se parte.
Estremece.
É juventude que se ergue.
Aos poucos,
Cresce.
É feia. Mas é uma flor.

Moira

Mundo mundo vasto mundo
Se minhas palavras escrevessem o destino
essa sim seria uma solução
mundo mundo vasto mundo
mais vasta é a desilusão
Afinal, que poder têm papel e caneta?
Não são nenhuma revolução.

Descoberta

Pouco menos de um ano atrás, em uma conversa com uma amiga que nem era tão amiga assim, eu sorri de maneira descrente e disse, em uma voz de arrogância provocada por sabedoria – que, por acaso, não possuo -, que escrever era sobre sofrimento ou confusão, porque as pessoas não querem ler sobre quão feliz outra pessoa realmente é. Hoje percebo meu erro. Às vezes, pode até ser que procuremos por algo que nos afaste dos nossos próprios desesperos, mas, de vez em quando, também acontece de querermos ler aquele conto de fadas perfeito. Só para lembrar a nós mesmos que esse tipo de felicidade plena, de alegria contagiante, de amor eterno e de amizade sem limites também existe.

Porque, eu descobri, sim, esse tipo de coisa existe.

Preconceito

Um grupo de conhecidos conversa.
─ Existem coisas no mundo que estão além da nossa compreensão.
Alguns concordaram, outros pareceram céticos, uma mulher interviu.
─ Sei o que você quer dizer. Nunca entendi a utilidade dos imãs de geladeira.
Todos riram, mas diante da expressão séria dela, se entreolharam. O filósofo fez como se fosse dizer algo quando um amigo colocou a mão em seu ombro, murmurando.
─ Deixa pra lá, cara, ela é loira.
Uma outra mulher, morena, revirou os olhos.
─ Ela pode tudo. Que preconceito.

Cenário

Um pássaro voa rapidamente.
Distante, quieto, sozinho;
Ele vai contra o vento.
Pobre, pobre passarinho.

Uma flor treme sob a neve:
Ela luta, procura, perde a sua cor;
E, por fim, perece.
Pobre, pobre flor.

O tempo passa devagar,
Como números ao relento.
Não pára, não corre.
Pobre, pobre tempo.

A mulher anda pela rua,
Sem saber exatamente o que quer.
Perdida, triste, miserável.
Pobre, pobre mulher.

“She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that’s best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.

One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every fiery tress,
Or softly lightens o’er her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling place.

And on that cheek, and o’er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!”

                              Byron.

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